Vacinação

Não obstante todos os esforços dos profissionais e das mais variadas organizações de saúde, o nível de vacinação na população a nível mundial ainda está longe do que seria desejável. No entanto, nos últimos anos temos assistido a várias campanhas, como por exemplo as organizadas pela Sociedade Portuguesa de Pneumologia ou pela Direção Geral de Saúde, relativas à prevenção da infeção por Streptococcus pneumoniae e do vírus da gripe, respetivamente, com o objetivo de reforçar a mensagem de que este tipo de defesa é fundamental para a manutenção de um bom estado de saúde. Esperemos que estas medidas ajudem a melhorar a penetração desta importante medida de saúde pública no nosso país.

Individualmente, o próprio profissional de saúde tem também um papel importante no sentido de alcançar este objetivo, seja um médico, um enfermeiro ou mesmo o farmacêutico. No entanto, o médico tem o privilégio único de avaliar as necessidades dos seus doentes e conseguir ativamente motivar a pessoa que se encontra à sua frente a aceitar a toma da vacina, fazendo-se valer do poder da relação médico-doente. Esta ligação ainda tem um peso especial na tomada de decisões por parte dos doentes, que muitas vezes têm duvidas ou receios sobre este tipo de tratamento, e que nos procuram para obter um conselho ou um esclarecimento sobre os perigos ou a necessidade real da vacinação.

Em Portugal a maioria dos indivíduos que pertencem a grupos de risco têm acesso gratuito e fácil à vacinação antigripal, nomeadamente através dos Cuidados de Saúde Primários, que têm um papel preponderante no controlo e expansão desta intervenção. Já sobre a vacina direcionada para a prevenção da infeção pela bactéria Streptococcus pneumoniae a história é um pouco diferente, uma vez que o apoio à sua aquisição se limita maioritariamente a uma comparticipação e, mesmo assim, esta continua com um preço de venda ao público relativamente dispendioso, o que leva a que muitos doentes pensem na sua saúde financeira primeiro, optando por não a adquirir, apesar de até poderem estar interessados e acreditarem nos benefícios que teriam em serem imunizados contra a bactéria.

É importante que todos nós, profissionais de saúde e a restante população, estejamos mentalizados de que uma vacina é muito mais do que uma proteção individual, mas sim uma importante medida de Saúde Pública e que defende a Humanidade. Várias doenças já foram erradicadas graças ao desenvolvimento deste tipo de imunidade adquirida, protegendo o ser humano de perigos para o qual não está geneticamente preparado. Sabemos que uma boa cobertura vacinal proporciona uma imunidade de grupo, conduzindo a uma efetiva diminuição do número de casos totais dessa doença, incluindo em pessoas que não se vacinaram.

 

A vacina da gripe

Anualmente a partir de Setembro começam a ser expostas e difundidas várias campanhas que apelam para a necessidade de que a população esteja vacinada contra o vírus Influenza, que é o responsável pela temida epidemia gripal, e que contribui grosseiramente para o colapso dos serviços de saúde durante os seus períodos mais críticos.

Existem três tipos principais deste vírus: o tipo A (ex: H1N1), o tipo B (ex: H3N2) e o C. O vírus do tipo A é o que está mais associado a pandemias, pela rápida disseminação de novos subtipos diferentes e com capacidade de transmissão homem a homem, que pode evidenciar alterações na sua constituição. E são essas modificações que permitem que este agente viral consiga escapar a ser eliminado pela imunidade da pessoa.

Os indivíduos em maior risco para desenvolverem uma infeção gripal são as pessoas com maior exposição ao vírus, como os trabalhadores em serviços de saúde e outros grupos de risco, como as grávidas, idosos com mais de 65 anos ou pessoas com doenças crónicas, tal como a DPOC, entre outros. Isso não quer dizer que um jovem não possa ter uma infeção viral que possa vir a necessitar de internamento em Unidade de Cuidados Intensivos, o que significa que todos podem beneficiar com a vacinação.

A vacinação para este vírus foi desenvolvida na década de 50 e tem sido aperfeiçoada desde então. Trata-se de uma vacina inativada trivalente, uma vez que englobam estirpes que não provocam doença – duas de Influenza tipo A e uma de Influenza tipo B. É administrada por via intramuscular em poucos segundos. O sucesso desta vacina antigripal está relacionado com a sua capacidade para ajudar a desenvolver anticorpos contra a duas proteínas presentes na superfície mais externa dos vírus da Gripe: os anticorpos contra a proteína H (hemaglutinina) evitam a aquisição da doença, e os anticorpos contra a proteína N (neuraminidase) diminuem a gravidade da doença, ao evitar que o vírus se espalhe tão facilmente.

O efeito da imunização não é imediato, estimando-se que demore aproximadamente duas semanas até que surjam os primeiros anticorpos protetores e o nível de defesa máxima só é atingido após 45 dias do momento da picada. Por isso, realça-se a importância de que as pessoas sejam vacinadas o mais precocemente possível para estarem protegidas durante o pico de incidência gripal.

Existe evidência cientifica de que a vacinação contra o vírus Influenza diminui a proporção de doença grave provocada por esta infeção, nomeadamente através dos indicadores de hospitalização por infeção respiratória inferior e da taxa de mortalidade. O próprio número de exacerbações de doenças respiratórias crónicas é menor em pessoas vacinadas.

Devido à já referida elevada mutação destes vírus, a composição desta vacina é atualizada anualmente para se adequar aos tipos mais frequentes na época viral anterior. Trata-se de uma estimativa do que poderá acontecer no ano seguinte, uma vez que não é possível saber antecipadamente os tipos de vírus que serão os mais ativos em determinada região. Quando a composição da vacina desse ano é a mais acertada existe uma proteção de 70-90% dos indivíduos com idade inferior a 65 anos. Convém também ter em atenção que nos mais idosos a eficácia da vacina é menos satisfatória, podendo ser necessário fornece uma dose mais elevada.


A ocorrência de reação adversas assusta alguns doentes, mas estes normalmente são pouco frequentes e ligeiros. Entre estes, destaca-se a dor no local da administração ou uma sensação de febre ou mialgias nos dias seguintes à toma. Nestes casos o profissional de saúde tem um papel fundamental, devendo alertar previamente a pessoa para essa possível ocorrência e, posteriormente, minimizar e contextualizar o sucedido, uma vez este poderá ser um momento de corte permanente com a vacinação para muitas pessoas mais sensíveis.

A vacina está disponível nas farmácias, sendo gratuita para as pessoas que fazem parte de grupos de risco, como os profissionais de saúde (se realizada a toma na sua instituição de trabalho), e para os indivíduos com mais de 65 anos nos Centros de Saúde ou com certas doenças, conforme diretiva da Direção Geral de Saúde que se encontra facilmente no seu sitio na Internet.

 

A vacina antipneumocócica

Outro perigo importante para quem tem DPOC é a infeção respiratória provocada pela bactéria Streptococcus pneumoniae, uma bactéria gram-positiva encapsulada que coloniza habitualmente a nasofaringe do ser humano. A infeção por pneumococcus não se limita apenas à via respiratória inferior, podendo provocar doença em vários locais, como sinusite, bacteriemia, meningite, entre outras.

Este tipo de vacinas foi desenvolvido há quase 40 anos atrás, existindo atualmente a comercialização de uma vacina polissacárida com 23 serotipos, e outras duas conjugadas, uma com 10 serotipos e outra com 13 serotipos.

As vacinas direcionadas contra este agente agressor são recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, no entanto a Vacina com 23 serotipos não faz parte do Plano Nacional de Vacinação, apesar de que desde 2010 esta ser disponibilizada gratuitamente em casos selecionados a nível hospitalar e em jovens em risco. Já a vacina com 13 serotipos desde 2015 que está incluída no Plano Nacional de Vacinação para todas as crianças nascidas a partir desse ano, enquanto que o resto da população continua a pagar a sua aquisição.

Como já foi referido, um dos grandes entraves a que exista uma maior adesão a este tratamento preventivo é o maior custo financeiro na sua aquisição, quando comparados com a gratuitidade ou o menor preço da vacina antigripal.

Esta vacina é administrada através de uma injeção, idealmente por via intramuscular, normalmente no braço ou na zona dos músculos glúteos. As vias intradérmica e intravenosa estão proibidas visto estarem associadas a reações graves.

Em muitos doentes, basta uma única dose, podendo haver lugar a uma revacinação cinco anos depois se a primeira toma foi realizada quando a pessoa tinha menos de 65 anos – isto no caso da vacina com 23 serotipos. As vacinas conjugadas não necessitam de revalidação. Esta é uma informação importante – é muito comum os nossos doentes perguntarem se têm que “repetir daqui a 3 ou 5 anos” a vacina, no entanto, repetições da dose mais frequentes não são aconselháveis, uma vez que que não foram descritos quaisquer benefícios.

Não existe qualquer inconveniente em serem administradas no mesmo dia da vacina antigripal, recomendando-se apenas que seja utilizado o braço contrário para a administração da segunda vacina.

 

Vacina com 13 serotipos

Este tipo da vacina é o tipo de vacinação conjugada mais usado e recomendado, e é constituída por pequenas quantidades de polissacáridos capsulares da bactéria que são adicionados a um transportador, cujo papel é o de ajudar a que estes sejam reconhecidos pelo sistema imunitário da pessoa.

Contém polissacáridos de 13 serotipos, 6 deles exclusivos desta formulação: 1,3,4,5,6A,6B, 7F, 14,18c, 19A, 19F e 23F.

A vacina resulta numa resposta imunitário de longa duração e com grande eficácia, estando associado a títulos elevados e persistentes de Imunoglobulina G, não sendo necessário repetir a sua toma.

É a vacina mais dispendiosa para o doente.

 

Vacina com 23 serotipos

Esta vacina polissacárida com 23 serotipos de S. pneumoniae induz uma resposta imunitária que é independente das células T, uma vez que se baseia na produção de anticorpos (células B).

O seu preço é comparativamente inferior à vacina anteriormente referida, e apesar de ter resultados ligeiramente inferiores à anterior em vários estudos, continua a ser alternativa eficaz. Devido ao seu menor preço, costuma ser mesmo a opção inicial preferida por parte da maioria dos indivíduos.

 

Esquemas